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25 janeiro 2026

A cor da pele


A COR DA PELE foi um dos mais importantes lançamentos de 2025. Um livro muito esperado por quem é leitor de poesia brasileira e, principalmente, por quem sabia de nosso débito para com a obra de Adão Ventura. "Trabalhando com uma estrutura rítmica que lembra os tambores ancestrais africanos, Adão Ventura dedicou-se a extrair melodia das palavras", escreve Jaime Prado Gouvêa na orelha do livro, apresentando o engenho do poeta autor dos versos "faça sol / ou faça tempestade, / meu corpo é fechado por essa pele negra" e da pergunta "Por que Jesus Cristo é sempre branco?". A poesia de Adão Ventura é composta por biografemas, ou seja, "aquele significante que, tomando um fato da vida civil do biografado, corpus da pesquisa ou do texto literário, transforma-o em signo, fecundo em significações, e reconstitui o gênero autobiográfico através de um conceito construtor da imagem fragmentária do sujeito, impossível de ser capturado pelo estereótipo de uma totalidade", conforme define Latuf Isaias Mucci. Mas em arte forma é conteúdo e ao biografema Adão engendra o ritmo que, inscrevendo o eu, convoca um coro, por exemplo: "eu, pássaro-preto, cicatrizo / queimaduras de ferro em brasa, / fecho o corpo de escravo fugido / e / monto guarda / na porta do quilombo", lemos em "Eu, pássaro-preto". O metro, a cesura, a quebra e o cavalgamento dos versos funcionam para figurativizar o conteúdo: um eu livre, porque pássaro, que guarda nós, artífice e missionário, porque preto. Para Silviano Santiago, "o elemento negro no poema, íntimo ou histórico, social ou racial, é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração". "- O meu mundo é limitado por / selos, números e ossos", dizem os últimos versos do livro A COR DA PELE, numa síntese da poesia, conforme anota o organizador Fabrício Marques, "de choque, reivindicatória, poesia-denúncia" de Adão Ventura.

18 janeiro 2026

O acento de conteúdo


Em O ACENTO DE CONTEÚDO Luiz Tatit desdobra e aprofunda pesquisas que vem desenvolvendo ao longo de sua intensa vida acadêmica. Boa parte dos textos do livro já tinha sido publicada em revistas acadêmicas e aqui aparecem de forma revisada e orgânica, adensando o objetivo de investigar a "presença concentrada da intensidade em todas as realizações humanas". Para tanto, o professor revisita conceitos de Algirdas Julien Greimas, Claude Zilberberg, Ernst Cassirer, Louis Hjelmslev aplicados a textos breves, notadamente crônicas e colunas de jornal, e trechos de canções; além de Goethe, Lichtenberger e Haroldo de Campos. Dispensável dizer que nisso está a generosidade característica do mestre, ou seja, tensionar temas duros da linguística com práticas cotidianas. Tatit sabe da "importância da intensidade afetiva na análise do sentido" e ao longo do livro glosa o aforismo de Paul Valéry, "o mundo vale pelos acentos e dura pelas modulações". Para o professor, acento é "esse ápice do sentido" e "associar o acento apenas ao inesperado é reduzir consideravelmente a sua função no decorrer de uma vida", afinal, "as quantificações subjetivas que culminam no acento são fases de uma apreciação do conteúdo analisadas como impulsos afetivos correspondentes aos que conduzem no plano da expressão os contornos entoativos ascendentes da prótase". Concomitantemente, Tatit nos ajuda a compreender um termo cada vez mais comum na prática crítica, mas pouco criticizada, teorizada, a saber, "afeto" ("impulsos afetivos"), enquanto medida para exame do conteúdo. Essa sensibilidade é resultado de anos de pesquisa, trabalho e contribuição ética e estética em torno da "prosodização do conteúdo" proposta por Zilberberg e sua semiótica tensiva. O interesse pela retórica, pelo conceito de "ênfase" ("asseveração", "afinal, sem acento não há direção") e de modulação, pelo "vigor afetivo", pela "existência acentuada", pelo "acontecimento" ("o que sobrevém e que tem alguma importância para o homem", segundo Zilberberg), pela "intensidade", pela "oralização estética" e função utilitária da fala, pela escolha de "contornos melódicos" une os textos de O ACENTO DE CONTEÚDO. Mais um livro indispensável de Luiz Tatit para quem compreende que "o que existe de pensamento abstrato na poesia (ou na canção) é justamente a sua substância de conteúdo ambígua e eternamente mutável".

11 janeiro 2026

Permanecer bárbaro


Leio o livro PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi e repenso a incorporação crítica da violência do Estado nas letras, performances e atitudes dos rappers: “O racismo destrói suas vítimas para que elas se comportem exatamente como previa a grande narrativa do Império, como uma alteridade brutal e vingativa, como primitivos”, escreve Yousfi. A autora debate o fato dos marginalizados serem transformados em “objetos de consumo”: “todas as marcas de luxo têm linhas streetwear. O rap é a música mais baixada na França. A rua molda toda a cultura visual da nossa época. Nós, mulheres da imigração, agimos para sermos aproveitadas não mais pelo Estado, mas pelo business”, lemos. A conclusão da autora é contundente: “Escrevi esse livro porque fracassei. Não permaneci bárbara”, confessa ao final; e pergunta: “Como rasurar a lição de casa quando a responsabilidade da família recai tanto sobre os nossos ombros, quando nossa voz constitui a ocasião rara para os nossos de ter um lugar na conversa?”. O subtítulo "Não brancos contra o império" é um diagnóstico e um convite. Yousfi é uma mulher não branca na França. A jornalista e crítica literária fala em “asselvajamento”, “permanecer bárbaro”. Tratando do grupo francês de rap PNL, Yousfi escreve que "Se você não é da família, não vai entender nada. Liricamente, foneticamente, musicalmente, tudo para você parecerá ininteligível, talvez até ridículo. Não procure saber mais. Esse universo não é feito pra você e ninguém será capaz de explicá-lo a você, simplesmente porque essas coisas não passam pelo sentido, mas pelo pertencimento ao grupo, pelo pertencimento ao sangue. Paciência se não há diálogo". PERMANECER BÁRBARO põe pingos nos is - os monstros que tanto ameaçam a vida do ex-cêntrico, do estrangeiro, do bárbaro, do à margem se alimentam do excesso de integração, de civilidade, de cultura, de Império; e não o contrário, conforme anunciado pelo próprio Império. "Quem tem consciência para ter coragem?", perguntavam os Secos & Molhados no Brasil do início dos anos 1970. A pergunta reverbera enquanto leio PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi.

04 janeiro 2026

Heptalogia


Virei 2025 para 2026 lendo HEPTALOGIA, de Jon Fosse. Presente de meu amigo e mestre Amador Ribeiro Neto, que apenas disse "pelo quanto que amamos a obra literária pela literariedade". HEPTALOGIA não é livro que se resume, que se resenhe, sem perda significativa da experiência de leitura. Dizer que é a narrativa de um pintor atormentado pela crise de criatividade, é pouco; dizer que é um livro que experimenta na pontuação, é pouco; dizer que é uma escrita de fluxo de consciência em que lemos o eu - Asle (pintor enlutado) - e seu duplo - Asle (pintor alcoolista) - em pleno ápice da maturidade autocrítica, é pouco; dizer que Asle é da linhagem de Brás Cubas, ou de Ulisses, é pouco; dizer que se trata da conversão de um ateu ao catolicismo, por causa da amada morta, cujo nome é Ales (não à toa anagrama de Asle), é pouco; dizer que se trata de um ensaio sobre arte ("um bom quadro precisa trazer alguma feiura em si para poder brilhar como deve, precisa conter a escuridão"; "porque a arte tem a ver com qualidade e nada a ver com gostar ou não gostar"), é pouco. HEPTALOGIA imprime o tormento da arte, a tal "literariedade". Para isso, tão importante quanto o conteúdo é a forma como Jon Fosse trata dessas e de outras questões. Lemos que "(...) justamente por essa combinação única de forma e conteúdo, como um espírito, e nessa unidade, nesse espírito, é tão invisível quanto a imagem, quanto a pintura, é visível, e é esse espírito que é de fato a imagem", a ser plasmada na obra de arte, e "o que a torna boa é exatamente a combinação de matéria e forma e alma, que se transforma em espírito". Asle busca entender essa imagem, esse espírito, o Deus de cada obra de arte. O trabalho de arte do escritor Jon Fosse está em plasmar a forma disso, por exemplo, cada um dos sete capítulos de HEPTALOGIA começa com "E ENTÃO ME PERCEBO DE PÉ olhando..." e termina com o narrador em estado de oração. Essa repetição em diferença dá o ritmo das quase 700 páginas do livro; essa repetição em diferença, acrescentando informações novas e revisando informações dadas, intensifica a experiência de leitura - o espírito, "porque tanto a Bíblia como a liturgia são ficção e poesia e pintura são literatura e teatro e artes plásticas, e assim todas encerram sua própria verdade, pois é óbvio que a arte contém sua verdade". Asle é narrador onisciente, como o Deus cristão. Asle está cansado do excesso de si, "por isso que me tornei pintor, por ter em mim tantas dessas imagens, tantas que chegam a me torturar", lemos. "Estou tão cansado" é frase que se repete ao longo da narrativa e é nesse estado que Asle pensa. Destaque-se a tradução de Leonardo Pinto Silva, as estruturas lexicais, com exemplos como "traz em si, sim, assim", intensificam a experiência de leitura que HEPTALOGIA é. 

28 dezembro 2025

O gosto dos extremos


O livro de Waltencir Alves de Oliveira cumpre o que o título promete, pois apresenta O GOSTO DOS EXTREMOS, "tensão e dualidade na poesia de João Cabral de Melo Neto, de Pedra do Sono a Andando Sevilha". Waltencir compreende que, para tensionar a divisão artificial cristalizada na fortuna crítica da obra cabralina entre incomunicabilidade (mais difícil, estética, metalinguística, para poucos) e comunicabilidade (mais fácil, ética, lírica, para todos), urge "examinar os modos de inserção da 'oralidade' na poesia de Cabral e sua vinculação com a comunicabilidade". O professor defende que a mistura das "duas águas" está no cerne da poética. Conforme já dissera Décio Pignatari, citado por Waltencir, "João Cabral sustenta uma enorme crise, um debate que nunca se resolve, entre a obra de arte em si e a obra de arte enquanto instrumento de melhoramento e aperfeiçoamento social". Forma é conteúdo. "O tema de um texto não é, ele se formula junto aos outros elementos do texto no processo de interação com o leitor em um dado contexto social e histórico"; "A poesia de Cabral evidencia muitos mecanismos de contenção da emoção lírica. Não obstante, contenção não é sinônimo de impessoalidade sendo, ao contrário, uma opção consciente pela conquista de uma linguagem que, a um só tempo, rasga e perfura o real representado", anota o autor. Waltencir investiga os modos como Cabral trata formalmente lírica (amor, autobiografia) e sociedade (vida e morte severinas). E só por isso o livro O GOSTO DOS EXTREMOS mereceria leitura. Mas há mais: Waltencir lê os poemas (destaquem-se as leituras de "Os Três Mal-amados" e "Menino de engenho"), gesto raro na crítica contemporânea, mais comumente afeita a usar os poemas para defender pré-conceitos. É do ouvido aberto que surge a tese defendida no livro: "a poesia de Cabral é lugar tenso da convivência entre extremos e que, nos livros posteriores a Educação pela Pedra, o percurso que parecia findado ainda estava longe de ter seu termo, sobretudo muitos aspectos cristalizados em sua arte poética seriam ainda diluídos em função de novas fórmulas e reorientações diversas". Para tanto, o autor de O GOSTO DOS EXTREMOS coloca em rotação uma palavra-chave, "dicção", ajudando-nos a ler o poema enquanto partitura, notando "o subir e o descer da entonação", conforme sugeriu Mallarmé no prefácio de Um lance de dados. E com isso, Waltencir ilumina o engenho com que Cabral redefiniu o lirismo (autobiográfico, amoroso, mas não só) no Brasil.

21 dezembro 2025

Dendorí


"Dendorí que dizer 'dentro do orí', palavra iorubá que significa 'cabeça'". A primeira frase do livro de Ricardo Aleixo nos apresenta ao tempo-espaço da leitura proposta, a saber, a escritura da performance de sua "pessoa-muitas" e as pegadas da cabeça do poeta, performador, músico e artista visual. O livro pode ser lido como caderno de anotações, fixação de verbetes, diário de trabalho, profissão de fé no ofício de "zelador da palavra", exposição de sua "forma pessoal de lidar com o signo verbal em sua passagem do silêncio da página para o espaço sonoro-acústico". Nessa exposição, lemos: "Tenho feito o que posso para recuperar [...] esse impulso para 'a liberdade extrema de tudo englobar sem jamais se perder na confusão e no caos'", logo depois de Aleixo citar um trecho de "A escrita de Orfeu", de Marcel Detienne. Há momentos que iluminam o livro todo e faz a gente rever conceitos cristalizados no senso comum do debate sobre poiesis. Por exemplo: "Eu acredito em inspiração. Ao contrário de muita gente que cultiva, dicotomicamente, a ideia de que a inspiração seria uma força, uma energia, algo, enfim, que se opõe ao trabalho, eu penso que muito trabalho significa a abertura de canais criativos tão poderosos que aí surge a inspiração. Nada a ver com o que o senso comum chama de dom, mas com muito treino, muita paciência e a criação da melhor situação possível para que essa abertura perceptiva de fato aconteça". Ao relacionar inspiração a maturação, a trabalho, a treino e paciência, Aleixo reencanta conceitos e práticas, "Diante da pletora de 'técnicos' sem técnica - e sem alma - que as faculdades continuam a despejar no mercado a cada ano". Paralelo a isso, Ricardo faz revisão e exposição de conceitos criativos originais de sua obra, tais como "texto-tambor", "improvox", "vocálea", "corpografia", "vocografia", "poemanto"... "A concentração de beleza ética e estética nessas palavras reforça que "Dentro do orí sempre tem muitas pessoas". No caso, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Paul Zumthor, Marcel Detienne, Octavio Paz, Muniz Sodré, Décio Pignatari, João Cabral, [...], Elza Soares, Guimarães Rosa, Edimilson de Almeida Pereira, Íris, Américo. Ricardo escreve sobre como a sua "pessoa-muitas" dá "corpo ao poema - e vice-versa". E que beleza ler o verbete "Parentaia" ouvindo a canção "Cuitelinho" na voz de Milton Nascimento. Lançado no final 2025, DENDORÍ é livro que deve ocupar espaço importante na biblioteca de quem trabalha com performance, poesia e outras artes do signo verbal.

28 setembro 2025

À roda de Antônio Vieira

Não é exagero dizer que é impossível estudar as letras coloniais do Brasil sem passar por um ou outro texto da professora Ana Lúcia Machado de Oliveira. “Breves anotações sobre a musa praguejadora da ‘época Gregório de Matos’”, por exemplo, é texto que indico como introdutório e imprescindível sobre o sátiro baiano. (Não sai da bibliografia de meus cursos sobre poesia). Assim como “À roda da eternidade: deslocamentos figurais do Uterus Mariae na sermonística vieiriana”, sobre o “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, do padre Antônio Vieira. Os textos da professora equilibram erudição e pedagogia (o desejo de comunicar, partilhar, característico de quem é mestre – não à toa, as salas de aula de Ana Lúcia estão sempre lotadas). Portanto, é de se louvar que, boa parte dos textos que até agora só eram encontrados espalhados por revistas acadêmicas, finalmente, apareça reunida no livro À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA. Sem subestimar quem lê, Ana Oliveira comunica temas, conceitos e práticas complexas, principalmente, sobre a instituição retórica. Mas não apenas, também, sobre o Brasil, ou seja, sobre a constituição das letras no Brasil. Por exemplo, como explicar o paradoxo sustentado por Vieira em que “o corpo finito da Virgem pode conter em si o espaço inteiro do mistério e do infinito”? Ana explica, recorrendo ao que há de mais sofisticado na crítica e acessando “uma linguagem cujas sonoridades exprimiam a ideia das ações e das coisas”. “Ao longo da argumentação vieiriana, o O [de Nossa Senhora do Ó] se desdobra em uma floração de figuras circulares, definindo-se sucessivamente como círculo, interjeição, ômega e ômicron, roda, cifra ou número, pronome, partícula apostrofante, ventre fecundado”, escreve a professora, que aponta a estratégia do padre no “desdobramento de imagens circulares e na proliferação do sentido”. Cito apenas uma das várias miradas críticas desenvolvidas nos textos que compõem À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA, livro que toda biblioteca de quem se interessa por literatura no Brasil merece e precisa.